munique vieira

meu trabalho

O que ofereço é uma escuta terapêutica, um campo de presença, cuidado e reflexão a que comumente chamamos clínica. Mais do que um serviço, trata-se de uma prática que remonta ao sentido original do termo, que vem do grego klínē - inclinar-se junto ao sofrimento, estar ao lado.

Meu trabalho é sustentar encontros onde seja possível a cada pessoa dizer o que ainda não tem forma, sentir o que ainda não tem nome e ter acolhido aquilo que muitas vezes não tem lugar: o estranho, o incomum, o que não se ajusta, o que não performa bem. Cuidar, para mim, é um gesto ético de acolhimento da diferença, da dissidência, do desejo, do conflito, do inacabado, do que não se encaixa nos moldes previsíveis da subjetividade social. Me interessa o que busca expressão, o que desafia padrões. Ao mesmo tempo, gosto de criar brechas em terrenos rígidos, de tocar quem foi endurecido por estruturas mais técnicas, racionais ou funcionais. Sensibilizar, para mim, é um posicionamento ético, estético, político e clínico.

Na forma como conduzo meu trabalho, escolho caminhar na contramão de um movimento frequente na psicologia: em vez de me especializar em um certo tipo de sofrimento ou um suposto perfil de pessoa, prefiro ampliar. Parto do reconhecimento de que somos múltiplos, contraditórios, em constante transformação — e que reduzir essa complexidade a categorias ou moldes prontos empobrece tanto quem escuta quanto quem é escutado. Atendo pessoas em situações de vida muito distintas, com histórias únicas, formas diversas de sentir e de estar no mundo — e é justamente nessa variedade que vejo força, pois acredito que a pluralidade não é um obstáculo à clínica, mas a própria condição que a torna viva.

Cada escuta, a meu ver, se enriquece ao ser atravessada por diferentes experiências, corpos, saberes, linguagens, mundos. Ao diversificar os encontros e os referenciais teóricos com os quais dialogo, alimento um olhar mais atento à complexidade do humano, menos propenso a fixar identidades ou a capturar o outro em estruturas fechadas. Assim, escolho me abrir ao trânsito entre diferentes abordagens e formas de compreender. A escuta que pratico foi refinada por diferentes discussões e narrativas teóricas mas é também composta pelas perguntas que carrego, pelas marcas que me constituem, pelas histórias que ouvi e pelas que me atravessaram.

Essa forma de trabalhar não é só uma escolha pessoal, mas uma concepção epistemológica do saber psicológico, que reposiciona seu lugar ao serviço do encontro, da escuta do que é singular, do cuidado com aquilo que não se encaixa facilmente. Não se trata de uma recusa da técnica, mas de uma aposta: a de que escutar bem exige também desaprender, transitar e se afetar para que o encontro clínico possa, de fato, ser espaço de transformação e criação. É essa aposta - na transdisciplinaridade, na diversidade e na complexidade - que sustenta minha prática clínica.