no que acredito
A escuta é meu gesto mais visceral, a seiva do meu trabalho e da maneira como me relaciono com o mundo. Escutar, para mim, é mais do que ouvir: é sustentar o que ainda não sabe ser dito e habitar uma presença que não apressa e não enquadra. É estar com.
Acredito que escutar é um ato radical de atenção — uma postura ética, mais do que técnica. As teorias psicológicas são fundamentais para dar densidade a esse movimento; sem elas, a escuta corre o risco de se tornar rasa, presa ao senso comum, incapaz de alcançar a complexidade do humano. No entanto, acredito que nenhum arcabouço teórico deve se sobrepor à experiência viva que se constrói a cada conversa. Antes de ocupar um lugar de saber, é preciso haver uma disposição genuína para acolher - sem antecipação, sem defesas, sem a pressa de encaixar histórias em estruturas preexistentes. As teorias devem estar a serviço da escuta, e não o contrário. Esse é meu posicionamento ético e epistemológico: deslocar o conhecimento técnico de um lugar de autoridade para uma ferramenta a serviço do encontro. Entendo o saber como lugar de abertura, não de enquadramento.
Não existe escuta neutra. Toda escuta carrega uma ética, uma visão de mundo. A minha se apoia na confiança de que cada pessoa carrega potência, mesmo quando tudo à sua volta diz o contrário. Acredito que a clínica não é um lugar de adaptação, mas de autenticidade. Que não se trata de consertar, mas de ampliar possibilidades de ser. Que o sofrimento precisa de espaço para se transformar, não de correção. Que a clínica é sobre construir uma ambiência e propor intervenções que sustentem o processo de alguém se tornar quem é, em contato com o que tem de mais humano, de mais verdadeiro ou doloroso, de mais belo e mais sombrio em si.