sobre mim
Desde pequena sempre fui muito sensível ao que me cercava. Uma semente que brota, o que se diz sem dizer, os movimentos de corpos e palavras, de paisagens e de afetos — essas manifestações silenciosas do mundo me tocavam muito, mesmo quando eu ainda não podia compreendê-las. Antes da palavra, a escuta: foi assim que aprendi a habitar o mundo.
Sempre me interessei mais pelo que escapa do que pelo que se impõe – tentava entender o que se escondia nas entrelinhas das conversas e de tudo ao meu redor. Queria saber como coisas e ideias se sustentam, o que as mantém em equilíbrio, o que as faz desmoronar. Uma curiosidade que me levou à Física, numa busca de explorar forças invisíveis, encontrar sentido nos padrões e nos desvios. Com o tempo, percebi que o que mais me interessava não cabia nas equações: eram as histórias por trás das descobertas, o que nos move a construir conhecimento, as lacunas que essa ciência não explica. Me aprofundei na história e filosofia da ciência e da tecnologia, fascinada pelo movimento das ideias. Lecionei Física por muitos anos, interessada em acompanhar o conhecimento no encontro com a experiência de outra pessoa - um exercício constante de escuta e abertura para diferentes formas de compreender o mundo.
A partir desse movimento de escuta e desse interesse pelo que me cerca, sinto naturalmente uma conexão com a alteridade — seja uma pessoa, um outro ser vivo, um ambiente. Esse encontro sensível gera uma abertura que chamo de cuidado: um gesto que reconhece nossa interdependência com tudo o que pulsa ao nosso redor. Para mim, cuidar é um ato que atravessa a escuta e alcança o sentido mais amplo de presença, atenção e responsabilidade — algo que se estende para além do humano e se faz em cada gesto, toque e respiração. É um modo de presença que busca cultivar condições de vida que respeitem não apenas as necessidades imediatas, mas também o equilíbrio mais amplo do que somos, enquanto corpos inseridos num mundo vivo e em constante transformação. Por sentir isso tão profundamente, é natural para mim querer abraçar o cuidado em suas muitas dimensões — do corpo ao ambiente, do alimento aos gestos, dos sentidos às relações. Foi assim que me aproximei de temas como sustentabilidade, cuidado ambiental, nossa relação com o alimento, com os movimentos corporais e com os diversos canais sensoriais que nos ligam ao mundo. Tudo isso, afinal, converge no cuidado — fio que tece meus caminhos e me guiou até a psicologia.
Hoje sou psicóloga clínica e o que me move é ajudar cada pessoa a encontrar sua própria verdade – não aquela esperada, moldada ou aprendida, mas a que emerge quando se escuta de perto. Minha escuta se abre a diferentes linguagens – do corpo, da fala, da arte, dos silêncios. Me interessa o que não se encaixa, o que busca contornos próprios.
Me sinto confortável nas fronteiras – não como lugares de separação, mas como territórios férteis de criação. Gosto de atravessar perspectivas, reagir com fluidez, encontrar caminhos que ampliam os movimentos possíveis. Sigo entre a ciência e a arte, entre o rigor e a intuição. Minha experiência de vida também compõe minha prática. Vivi em diferentes contextos, carreguei perguntas e cicatrizes que enriqueceram minha escuta. Passei anos viajando para ouvir histórias, conhecendo realidades diversas, acolhendo múltiplas formas de existir.
Tudo isso me trouxe até aqui. No centro do meu trabalho, permanece o que sempre me moveu: o interesse genuíno pela outra pessoa, a confiança em sua potência e a premissa de que o cuidado ético está acima de qualquer técnica ou saber.